segunda-feira, 31 de outubro de 2011

CORDEL - O CASO DA FADA CATRAIA


Esse caso se passou
Num sertão quente danado
Lá pras bandas do Araripe
Que não tem ar condicionado
Que segure o calor
Esse caso quem me contou
Foi um cabra sem pudor
Chamado Zé tremelique

Me contou esta anedota
Dizendo que não era mentira
Dizendo que não era chacota
E eu partindo uma embira
Falei que ia ouvir
Disse ter visto o saci
Debaixo do pé de buriti
Conversando com o curupira

O curupira chorava
Olhando para o chão
Dizendo: "era verdadeira
A minha grande paixão"
O saci o consolava
Dizendo: "deixe de besteira
Se não eu puxo a peixeira
E te dou uma lição”

“Essa fada é foda”
Reclamava o curupira
“Agora virou moda
Provocar a minha ira
Isso muito me incomoda
Me deixou a ver navios
Num lugar que nem tem rio
Só tem pé de macambira”

O saci dava risada
Do drama do colega
“Essa fada é safada
Já nem tem mais prega
Deixe de seu aperreio
Que lá na gruta do meio
Até eu já peguei
Aquela fidumaégua”

“Cala boca seu cabra!”
Retrucou o curupira:
“Vê se a língua tu dobra
Tu já tá na minha mira
Seu amigo da cobra
Vou lhe dar uma rasteira
Se tu falar besteira
Da minha fada zumira!”

“Deixe de lenga lenga
ô corno brabo da gota!
Essa fada é uma quenga
Tu tens que parti pra outra
Bora pra casa de Rapunzel
Ela mora ali na esquina
Depois do cabaré de dona Dina
Na estrada que vai pro beleléu”

O curupira inconformado
Só fazia resmungar
O coração mal amado
Pobre desconsolado
Nem queria palpitar
“Porquê eu fui chifrado?
O casamento tava marcado
Acho que vou me matar”

O saci se arretou
“deixe de besteira”
Na mesma hora gritou:
"Mas que lezeira?
Essa fada é da vida
Ontem ela tava no forró
No rala bucho com socó
Paquerando um druida” 

O curupira murmurou:
“Meu amor era verdadeiro
E ela não acreditou
Me traiu com um boiadeiro
Vou tomar um velho barreiro
Tô sofrendo de solidão
Vou beber o dia inteiro
E dormir aqui no chão”

“Pare com isso curupira
Deixe dessa bestagem
Desse jeito tu me pira!
Pra mim já é viadagem
Parece um grilo, só cricrila
Bora simbora pra rua
Jogar pedra na lua
Pra melhorar tua ira”

A proposta do saci
O curupira aceitou
“Com tu eu vou seguir
Essa fossa já passou
Simbora se divertir
Quero é mais curtir!
Não vou sofrer por amor”

“É assim que é”
Comentava o saci:
Pulando num só pé
Feliz a sorrir
“Tanta gente por aí
Do Oiapoque ao Chuí
O que não vai faltar é muié”

Disse o zé tremelique
"Valei minha Nsa. Senhora!"
Que não sabe o fim da história
Os dois saíram num pique
Por trás de um pé de xique xique
Tá curioso até agora

Os dois saíram desembestados
Mato adentro, desviando dos cipó
O curupira com os pés pra trás
O saci numa perna só
Quem nem dos animais
Rindo que nem abestados
Do episódio revertido ao pó

Zé tremelique reclamou
Que o fim da saga de desamor
Tava prestes a desvendar
Quando o garçom gritou:
“Ô bêbo! o bar vai fechar!
Levanta tua bunda daí
Vaitimbora, saí daqui
Que eu quero arrumar”

Fiquei brabo
Virado no giraia
Era tudo boato
Daqueles cheio das gaia
Fiquei um tempão ouvindo
E ele só mentindo
Do caso da fada catraia

Não passava de um sonho
No balcão de um bar
E aquele cabra medonho
Fez eu acreditar
Mais confesso, muito sorri
Com a história que ouvi
E que acabei de contar



Caranguejúnior

Um comentário:

André Dia(s,z)? disse...

Eta, nóis! Cabra bão de contar história! Parabens!
Abraço!